Pesca do Choco

Com o bom tempo a chegar e a Primavera a dar um ar da sua graça, fomos fazer uma jornada aos chocos. Como palco tínhamos à nossa disposição o rio Sado que apesar da forte pressão de pesca, continua a ser um palco privilegiado para este tipo de pesca.

Com um dia sem vento e o sol encoberto pelas nuvens a opção do sobre o Sado não podia ter sido melhor, com chocos de bom tamanho a revelarem-se difíceis de enganar.

Os materiais e montagens

A utilização de toneiras flutuantes (“palhaços”), a técnica e movimentos para pescar ao choco são diferentes da pesca às lulas – as lulas fazem variações de profundidade quando se alimentam enquanto os chocos têm tendência a fazer tudo encostados ao fundo, por motivos de alimentação e de protecção contra os seus predadores.
Na pesca ao choco, com a água a correr, deve ser utilizado apenas um “palhaço” em cada linha de mão ou cana com a seguinte montagem:
A chumbada é colocada na extremidade da linha e o estralho para o “palhaço” deve partir 20cm acima da chumbada. O estralho do “palhaço” deve ter 60cm de comprimento para poder trabalhar na corrente.
As linhas de mão para a pesca ao choco são mais vantajosas do que a utilização de canas (a sensibilidade é muito maior e permite ter uma linha em cada mão, quando o choco ferrado chega ao pé do kayak está muito mais perto e em melhores condição de tirar da água). Para quem não está habituado faz alguma confusão a linha de mão, mas com a prática as canas ficam em casa para sempre.

A técnica

Na pesca às lulas os movimentos são mais rápidos e com intervalos muito curto entre movimentos, mas no choco temos que ter mais arte para enganar este predador voraz mas inteligente. Os movimentos devem ser muito mais lentos e longos, com repetições espaçadas, o truque é sentir a chumbada bater nu fundo e deixar passar alguns segundos, voltando a levantar a pesca com força (isto garante que ferramos melhor o choco caso ele já tenha agarrado o “palhaço”). Se não tiver nada garantimos uma maior elevação do “palhaço”, ficando mais visível e cobrindo uma área maior de pesca.
Esta é a técnica mais utilizada pelos profissionais, sofrendo algumas variações consoante a força da água e a variação de atitude do choco. A escolha das cores dos “palhaços” é o ponto que mais mistério causa nesta pesca, o que chega a enervar o mais calmo dos pescadores, pois nunca vamos saber qual a melhor cor, correndo o risco de termos todos as cores menos a que eles querem.
Esta técnica de pesca funciona melhor com a água a correr, sendo um dos grandes pormenores para que tudo funcione aproar constantemente o kayak à corrente. Este factor é determinante para garantir que as pescas não se enrolem e principalmente evitar que uma das linhas passe por baixo do kayak. Normalmente este descuido faz com que ao puxar o choco para cima este fique debaixo do kayak, o que significa mais um choco perdido (quando vem um polvo a tragédia é maior, pois este faz de tudo para não sair da água e se conseguir o contacto com o kayak não há ninguém que consiga tira-lo de lá, sendo a solução ir a terra para não perder o polvo ou o “palhaço”).
Quando apanhar um choco tenha cuidado... Não fique pintado de preto! Para soltá-lo da amostra não lhe toque – inverta a posição do “palhaço” e ele cairá.

Os polvos (Octopus vulgaris) e as lulas (Loligo loligo e Sepia officinalis) possuem, respectivamente, oito e dez tentáculos. Nos polvos, a massa visceral fica contida num saco pendente da cabeça. São também portadores de uma bolsa de tinta que utilizam nos momentos de perigo. As lulas e os chocos deslocam-se por jacto-propulsão, à custa da eliminação brusca e violenta da água por um sifão situado junto à prega do manto que forma as brânquias. Em relação à concha, que é característica dos moluscos cefalópodes, no caso da lula está reduzida a uma lâmina e tornou-se interna; no caso do choco, só permanece uma tira (a pena) e nos polvos já não existe qualquer traço da concha.

O choco, caçador carnívoro, rápido e astuto, bastante voraz, tem o trato digestivo completo, complexo, boca com uma faringe muscular e com um par de mandíbulas córneas semelhantes a um bico de papagaio invertido. Apresenta fileiras transversais de diminutos dentes quitinosos para raspar alimentos. A cabeça de bom tamanho tem dois olhos conspícuos e uma boca central, circundada por 10 braços carnosos que contêm ventosas em forma de taça; o quarto par de braços é longo e retráctil.
Para caçar, o choco nada para a frente com os braços unidos e lança-se sobre a presa ejectando repetidamente água pelo sifão; os braços separam-se, a presa é agarrada e levada para a boca, mordida pelas mandíbulas e deglutida. Tem uma enorme capacidade de fuga aos predadores, não só pela sua velocidade como pela capacidade de alterar a sua coloração para se confundir com o ambiente e o jacto de "tinta" que expulsa da bolsa do ferrado, destinado a turvar a água e a permitir a fuga.
O choco aparece com grande frequência no fim da Primavera e no Verão, altura em que se aproxima da costa e pode ser pescado da mesma forma das lulas, isto é, utilizando amostras (toneiras ou palhaços). Pode também usar-se a amostra de chumbo, que se vai movimentando para cima e para baixo. Quando se sente o choco preso, deve recolher-se a linha sem parar, mas sem violência, para que este não se solte, ficando preso pelos tentáculos que são relativamente frágeis.

Texto e imagens: Rui Carvalho